Vendas da indústria estão em queda há uma década

    27/05/2015

    A participação dos produtos manufaturados na pauta de exportações brasileira está em declínio há uma década e especialistas avaliam que a indústria não reúne condições de reverter essa tendência no curto prazo. Em 2005, a maior fatia, 55,1% da receita do país com vendas ao exterior, foi obtida com manufaturados. Em 2010 essa participação já havia caído para 39,4% e foi superada pelos produtos básicos, que geraram 44,6% dos recursos. No ano passado, nem mesmo a soma dos embarques de manufaturados, 35,6% do total, e dos semimanufaturados, 12,9%, totalizando 48,5%, foi suficiente para superar as exportações de básicos, 48,7% do total.

    José Ricardo Roriz Coelho, diretor de competitividade e tecnologia da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), diz que o país enfrenta uma “desindustrialização precoce”. A indústria há duas décadas gerava 30% do PIB brasileiro, agora responde por 14%. Um patamar baixo se comparado com a Coreia do Sul, 28%, e China, 34%.

    Esse enfraquecimento ocorreu apesar da ampliação do mercado consumidor. Entre 2003 e 2013, demonstra estudo da Fiesp, as vendas do comércio no Brasil cresceram 118%, mas a indústria não aproveitou a oportunidade. No período, a produção cresceu apenas 27%.

     

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    “A indústria brasileira deixou de expandir, investir e inovar e tem dificuldade de competir no exterior e no mercado interno”, diz Roriz. Em 2014, a indústria de transformação apresentou um déficit em sua balança comercial de US$ 58,86 bilhões.

    Um em cada quatro produtos industrializados vendidos no Brasil passou a ser importado. E não é por falta de capacidade instalada no país. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a ociosidade média do setor é de 20%.

    “A valorização da moeda brasileira e o ‘custo Brasil’ são os responsáveis pela perda de competitividade da indústria”, diz Roriz. A Fiesp calcula que o “custo Brasil” encarece em 23,4% o produto nacional em comparação à média de preços apresentada pelos 15 maiores competidores internacionais.

    No ano passado, o câmbio valorizado encarecia o produto nacional em 16%.

    O consultor Antonio Corrêa de Lacerda, professor de economia da PUC-SP, diz que o país precisa adotar uma agenda com ações macro e microeconômicas para criar as condições de uma retomada das exportações de manufaturados. “Hoje nossa indústria não tem condições de competir e vai continuar perdendo espaço no mercado internacional”, diz. A consequência é uma dependência cada vez maior do país da venda ao exterior de produtos básicos, que apresentam uma grande volatilidade de preços e geram pouca riqueza para o país produtor.

    Entre as medidas macroeconômicas, Lacerda defende a equalização do custo do capital no Brasil com o custo nas principais economias internacionais, o que implicaria uma política de redução de juros, movimento inverso ao conduzido atualmente pelo Banco Central. E também uma reforma tributária que desonere a produção. Entre 1996 e 2014 a carga tributária brasileira subiu de 26% para 36% do PIB, sendo mais elevada que a de outros países emergentes, cuja média é de 20%.

    Lacerda diz que o longo período de apreciação do real frente ao dólar na última década e meia desarticulou cadeias produtivas locais, que foram substituídas parcialmente por produtos importados. Segundo levantamento da Fiesp, entre 2000 e 2014, a valorização nominal do real foi de 29%.

    Lacerda avalia que a recente desvalorização da moeda brasileira, com a taxa de câmbio passando da casa de R$ 2,60 no final de 2014 para taxas na casa dos R$ 3,00 em maio, terá um efeito limitado sobre as exportações, uma vez que várias moedas no mundo, entre elas o euro, também se desvalorizaram em relação ao dólar no mesmo período.

    “O câmbio valorizado encarece nossos produtos em dólar. O país terá que adotar uma desvalorização mais acentuada para exportar, mesmo que, no curto prazo, isso represente aumento de inflação”, diz.

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