Um exemplo a ser seguido na indústria

    20/01/2016

    Dados do Ministério da Previdência e Assistência Social apontam que, entre 2011 e 2013, o setor industrial brasileiro registrou uma média de 710 mil acidentes de trabalho por ano. Dentre essas ocorrências, cerca de 11 mil ocorreram na Indústria de Transformação do Material Plástico – o volume representa pouco mais de 1,5% do resultado total da indústria.

    O número de acidentados corresponde a cerca de 3% do total de trabalhadores da indústria do plástico. Segundo o MTE (Ministério do Trabalho e Emprego), em 2014, o segmento reunia aproximadamente 352 mil empregados.

    Indo ao encontro deste levantamento, números oficiais apontam a indústria do plástico como uma das de menor ocorrência de acidentes e de doenças ocupacionais entre seus trabalhadores. Em um panorama feito pelo Sesi-SP (Serviço Social da Indústria de São Paulo), em 2004, a taxa de acidentes para este ramo de atividade era de 31,3 trabalhadores afetados a cada mil por ano. Para se ter a dimensão deste dado, a indústria carvoeira, a que mais causou danos aos trabalhadores naquele ano, registrou taxa de 84,1 a cada mil trabalhadores, número quase três vezes superior ao segmento do plástico. Somente a indústria da reciclagem apresentou resultados abaixo da indústria do plástico, com taxa de 29,8.

    Para Antonio Kumagai, assessor técnico da Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico) e do Sindiplast (Sindicato da Indústria de Material Plástico, Transformação e Reciclagem do Plástico), além de membro da CPN-Plástico (Comissão Permanente de Negociação do Plástico), a coordenação entre as empresas, as representações dos trabalhadores e o governo contribuem para que se alcancem esses bons resultados. “No Estado de São Paulo, por exemplo, desde 1992, um grupo formado pela representação dos trabalhadores através da Força Sindical, CUT [Central Única dos trabalhadores] e sindicatos filiados, pelo Ministério do Trabalho e Emprego através da Fundacentro e pela representação nacional do Sindiplast se reúne com o objetivo de melhorar as condições de segurança na operação das máquinas de transformação de material plástico”, afirma Kumagai.

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    De acordo com o assessor, esse grupo foi pioneiro na criação de uma convenção coletiva de trabalho relativa à segurança em máquinas de forma tripartite (reunindo empresários, trabalhadores e governo). A convenção, estabelecida em 1995, possui cláusulas técnicas e sociais, servindo de base para convenções de outros segmentos da indústria. Além da convenção, o grupo tripartite criou ainda a CPN-Plástico, que, após 20 anos de aplicação, já cadastrou mais de 7 mil máquinas, treinou mais de 150 instrutores e capacitou mais de 180 mil operadores, somente no Estado de São Paulo.

    Maquinário

    Essa atenção à segurança das máquinas envolvidas na produção é um dos principais fatores de redução do número de acidentes de acordo com Luiz Maurício Arruda, responsável pela área de Sesmt (Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho) da Jacto, divisão Unipac. “Muitas inovações tecnológicas foram implementadas no maquinário nos últimos anos. A automação de tarefas antes realizadas pelos trabalhadores contribui enormemente para a redução do número de acidentes”, cita Arruda.

    As pequenas fraturas e ferimentos nas mãos são os principais tipos de acidentes às quais o trabalhador da indústria do plástico estão sujeitos, daí a importância deste tipo de automação. “Os avanços na utilização de braços mecânicos que substituam essas pequenas tarefas manuais são importantíssimos”, explica o especialista.

    “Outros dois fatores são as interrupções automáticas de funcionamento das máquinas quando há algum defeito, que ocorrem por meio de sensores, e os sistemas redundantes, que garantem essa paralisação mesmo quando há falha em algum dos sensores”, diz Arruda.

    Grande parte dessas inovações se devem às normas estabelecidas pelo grupo tripartite de regularização do setor, tendo sido primeiramente aplicadas nas máquinas injetoras. Com o tempo, as normas se estenderam também às máquinas sopradoras de material plástico. Máquinas e moldes se tornaram mais eficientes. Esses moldes permitem a eliminação da etapa de acabamento manual das peças. Além dos manipuladores (braços robóticos), foram introduzidos extratores automáticos de peças nas máquinas.

    “Um grave problema ainda é o alto custo dessas máquinas. Embora as grandes empresas utilizem largamente essas tecnologias, o que contribui para o baixo índice de acidentes, sabemos que o setor possui muitas pequenas empresas para as quais esses custos são impeditivos”, diz Arruda.

    Segundo dados da Rais (Relação Anual de Informações Sociais), em 2010 existiam 11,5 mil empresas de transformação de material plástico no Brasil, que empregavam 349,5 mil trabalhadores. Deste total, 94% era constituído por micro ou pequenas empresas. O Estado de São Paulo concentra 44% das indústrias de transformação do material plástico no Brasil, seguido pelo Rio Grande do Sul, com 11%, e Santa Catarina e Paraná, que somam 8%.

    O especialista, todavia, afirma que o investimento para se obter um baixo número de acidentes passa também pelo capital humano. “Os investimentos em segurança, de modo ideal, devem se concentrar 50% em tecnologia e 50% no material humano”, conta ele. “É preciso insistir nos treinamentos e campanhas de conscientização. “

    De acordo com Arruda, a Jacto mantém comissões permanentes responsáveis por essas ações. As equipes são multidisciplinares, envolvendo os diversos setores da empresa, como a engenharia, a linha de produção e a área de Recursos Humanos. “É importante que todos estejam envolvidos. “

    Treinamento

    O responsável pelas relações trabalhistas da Abiplast e do Sindiplast e coordenador da CPN-Plástico, Gilmar do Amaral, explica que os principais acidentes de trabalho no setor de transformação de material plástico ocorrem em atividades de acabamento manual, nas quais, muitas vezes, o trabalhador não utiliza os equipamentos de proteção obrigatórios, mesmo após orientações e verificações da empresa. Os membros superiores são os mais vulneráveis neste segmento. Quando se trata da segurança em operações de máquinas, o setor se baseia em quatro pilares fundamentais. Os três primeiros, de acordo com Amaral, são a segurança mecânica, a segurança hidráulica e a segurança elétrica. O quarto pilar é justamente o treinamento, sem o qual todas as medidas anteriores tornam-se insuficientes. “Esses pilares não podem não podem nem devem ser tratados isoladamente, garantindo, desta forma, a redundância necessária para a segurança dos operadores e demais profissionais que tenham contato com o equipamento”, orienta o coordenador.

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    Hoje, segundo Amaral, a CPN-Plástico trabalha para a difundir os requisitos de segurança de máquinas e de treinamento para que sejam adotados e aplicados em outros Estados além de São Paulo. Não observar o treinamento adequado, além de colocar em risco a saúde do trabalhador, pode trazer altos custos a uma companhia.

    Uma empresa gaúcha, em janeiro do ano passado, por exemplo, foi condenada a pagar R$ 23 mil de indenização por danos morais e estéticos a uma trabalhadora que sofreu graves ferimentos no braço causados por um estilete. A empregada, que sofreu cortes profundos no antebraço que atingiram nervos e tendões, não havia recebido treinamento adequado para a tarefa que realizava – cortar rebarbas de produtos injetados em plástico. O Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região acabou determinando que o acidente foi causado por negligência da empresa, resultando na indenização.

    Custos de responsabilidade civil e criminal não são os únicos. Acidentes no ambiente de trabalho geram consequências como salário dos quinze primeiros dias após o acidente, transporte e assistência médica de urgência, paralisação de setor, máquinas e equipamentos, comoção coletiva ou do grupo de trabalho, interrupção da produção, prejuízos ao conceito e à imagem da empresa e embargo ou interdição fiscal entre outras. Sem contabilizar, ainda, os danos físicos, financeiros e psicológicos que acometem o trabalhador e a sua família.

    Trabalho bem feito

    Na opinião de Eduardo Ferreira Arantes, gerente executivo de Qualidade de Vida do Sesi-SP, a indústria do plástico tem sido bem-sucedida em sua missão de reduzir o número de acidentes e de doença ocupacionais no segmento. “A indústria de transformação de material plástico contribui de forma relevante para o desenvolvimento da economia brasileira, gera milhares de empregos e vem atuando fortemente para promover a segurança e a saúde. O plástico está presente sobremaneira em nossas vidas, na construção civil, no ramo alimentício, nas utilidades domesticas, em embalagens, nos produtos de higiene e limpeza e nos automóveis” afirmou.

    O gerente executivo conta que um estudo realizado pelo Sesi-SP em 2012 com 224 trabalhadores deste segmento não verificou nenhuma ocorrência de doença ocupacional naquele ano. “Entretanto, caso não ocorra a proteção adequada, podem ocorrer perdas auditivas induzidas pelo ruído, irritação respiratória pela exposição ao fumo de plástico e dermatites”, explica. Quanto aos acidentes, os que envolviam as mãos foram os mais comuns apontados no estudo do Sesi. “Também podem ocorrer escorregões e ferimentos provocados por objetos em movimento e cortantes nas indústrias deste tipo”, conclui Arantes.

    “Os principais perigos no processo de transformação de material plástico estão
    associados ao uso de máquinas e equipamentos durante a operação normal, na limpeza e na manutenção. Em relação ao risco de desenvolvimento de doenças do trabalho, podem ocorrer dermatites e perdas auditivas, caso não ocorra a proteção adequada. Também há riscos de doenças por inalação de fumos de plástico.”

    Para que estes riscos sejam evitados e o setor continue mantendo os baixos níveis de acidentes, o gerente recomenda que devem ser priorizadas as medidas sobre as fontes ou a trajetória dos agentes durante o processo de produção, a adequação de procedimentos, as medidas de proteção coletiva e, por último, o uso de equipamentos de proteção individual. Se mantiver essa atenção, o setor poderá contribuir ainda mais para a redução de acidentes e doenças na indústria. “A indústria de transformação do material plástico tem um bom padrão de segurança e saúde. O uso de máquinas e equipamentos mais modernos têm reduzido os números de acidentes de trabalho, bem como o ruído no ambiente de trabalho”, diz ele.

    “Os dados da Previdência Social de 2011 a 2013 mostraram uma redução de 3,2% no número total de acidentes neste setor, de 38% nas doenças do trabalho e de 18% nos casos de nexo técnico epidemiológico previdenciário em que a relação direta entre o trabalho e o acidente ou doença pode ser contestada”, conclui Arantes.

     

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