Parece que parou de piorar | Entrevista José Ricardo Roriz para a Plásticos em Revista

    29/08/2016

    Parece que parou de piorar | Entrevista José Ricardo Roriz para a Plásticos em Revista

    Edward Gibbons, historiador inglês, dizia que os triunfos do Império Romano continham as sementes da sua ruína. A indústria brasileira de transformação de plásticos hoje presencia o cumprimento deste mesmo destino debatendo-se nos escombros do legado de 13 anos de governos petistas. Para onde quer que o setor olhe, é alarmante o recuo aos patamares de consumo de anos atrás, demonstra nesta entrevista José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (ABIPLAST). Os prejuízos apontados no balanço do primeiro semestre servem ao dirigente de trampolim para engrossar o coro do empresariado que clama por reformas a sério do novo ocupante do Planalto; caso contrário, o país e sua economia nunca deixarão de ser movidos a espasmos.

    PR – Como avalia o desempenho da transformação no primeiro semestre deste ano ?

    Roriz – A indústria de transformados plásticos apresentou no primeiro semestre de 2016 o pior resultado desde 2009, ano da última grande crise econômica. A produção física sofreu retração de -12,9%, o faturamento real recuou -13,5%, o consumo aparente caiu -13,9%, o setor fechou quase 6.000 postos de trabalho e o nível de utilização da capacidade instalada está em cerca de 61%. Confrontando o semestre passado com o mesmo período em 2015, houve recuo generalizado na produção física de alguns dos principais mercados consumidores de artefatos plásticos. Foi o que se viu, por exemplo, na retração de -21,2%, na queda de -27,0% no setor de eletroeletrônicos e de -16,0% em bens de capital em geral.

    PR – Diante disso, o que se pode esperar do semestre atual?

    Roriz – Apesar do comportamento preocupante dos transformados de janeiro a junho último, observa-se uma melhora na confiança no ambiente de negócios, em função das expectativas positivas. De acordo com sondagem da ABIPLAST junto a associados, espera-se melhora nas vendas, no nível de produção, custos e estoques a partir do terceiro trimestre. Em julho, as expectativas captadas pela ABIPLAST eram de queda de -6,2% na produção e, para o consumo aparente, estimava-se recuo de -6,8% para o final deste ano. No entanto, devido aos motivos citados, a ABIPLAST refez, no início de agosto, suas projeções para o fechamento de 2016. Foi quando aferiu uma melhora nos principais indicadores. Para a produção, por exemplo, estima- -se agora retração de -5,1% em 2016 e no consumo aparente, queda de -5,6%.

    PR – Qual a consistência dos sinais de retomada e volta da confiança dos empreendedores trombeteados pelo governo?

    Roriz – O cenário de retração da demanda, escassez dos empréstimos bancários e redução brusca dos investimentos na indústria permanece na economia. No entanto, existe uma melhora na expectativa do empresariado do setor plástico. Até o momento, a indústria transformadora, receosa diante da instabilidade econômica e política, não se sentia segura para tomar decisões capazes de expandir de fato seu negócio. Ao contrário, realizou ajustes para reduzir custos de produção, visando sobreviver em meio à crise. Com o retorno de um certo otimismo, o empresário tem sentido mais confiança para realizar ações de melhorias no negócio, como investimentos na produtividade ou novos caminhos para ampliar vendas e diminuir estoques. Vejo, portanto, um sinal de término da queda, gerando expectativa de retomada iminente.

    PR – Quais as reformas consideradas primordiais e urgentes pela ABIPLAST para a economia não voltar aos voos de galinha e crescer linearmente?

    Roriz – Tratam-se de ações estruturais nas seguintes áreas:

    A. Política – ampla reforma com regras de compliance, para evitar crises políticas como a atual, com regras de transparência extensivas ao uso dos fundos partidários.

    B. Trabalhista – atualização da CLT à realidade das formas de trabalho deste início do século XXI, findando com práticas como sobrepor as negociações salariais ao que determina a legislação.

    C. Previdência – desvincular o piso previdenciário do salário mínimo; estabelecer idade mínima de aposentadoria em 65 anos para homens e mulheres; e igualar os regimes Urbano e Rural.

    D. Fiscal – implementação de instrumentos de transparência das contas públicas e de limite para o crescimento do gasto público.

    E. Tributária- simplificação das regras tributárias, redução da carga e adoção de desonerações para ampliar a competitividade da indústria.

    F. Tarifária – revisão da lógica tarifária, priorizando setores de maior valor adicionado.

    PR – Quando esta recessão passar, quais as mudanças que antevê no perfil da transformação de plástico no Brasil?

    Roriz – A sociedade brasileira vivencia um momento de reestruturação. A indústria como um todo trata de se adaptar às transformações institucionais recentes. Ao longo das diferentes cadeias de valor, empresas como as transformadoras começam a notar as vantagens de incentivar uma cultura de melhores práticas relacionadas à integridade e proteção da concorrência. Com a crise, outro ponto vivido pelo setor foi a redução do número de empresas e do pessoal ocupado. Essa situação pode ter trazido um novo perfil de posicionamento às companhias e tende a mostrar que a consolidação é uma lógica necessária e inevitável para que as indústrias tenham maior expressão nos mercados.

    PR – Por que as exportações brasileiras de transformados ainda não deslancharam a contento tendo o câmbio favorável para vendas externas?

    Roriz– No fechamento de 2015, as exportações do setor aumentaram 8,9% em volume. Porém, a desvalorização cambial não é determinante para estimular as exportações de artefatos plásticos. Considerando que o câmbio é componente da formação dos preços da matéria-prima, as desvalorizações cambiais impactam diretamente em aumento nos preços das resinas, reduzindo assim a competitividade do setor. Fora isso, convenhamos que, estruturalmente, a indústria transformadora de plásticos não possui cultura exportadora. Seu coeficiente de exportação paira em torno de 5%.

    PR – Por qual razão?

    Roriz – Parte do setor ainda não conhece o mercado externo e/ou acredita ser alto o custo de uma estrutura para exportar. De acordo com o relatório “Manufacturing the future: the next era of global growth and innovation” (“Fabricando o futuro: a próxima era de crescimento e inovação em escala global”) elaborado em 2012 pelo Mackinsey Global Institute, mesmo paí- ses com alto índice de exportação, caso da Alemanha, embarcam apenas 20% de sua produção de manufaturados.

    De volta ao setor específico de transformados plásticos, uma peculiaridade generalizada entre suas indústrias é sua proximidade do mercado consumidor. Afinal, determinados produtos, principalmente os rígidos e ocos, possuem um custo de logística muito alto, desfavorecendo suas exportações. •

     

     

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